Um ensaio que começou com uma simples explanação de algumas proposições econômicas e cresceu ao ponto de tornar-se uma longa análise de vários lugares comuns da nossa cultura e uma firme defesa do capitalismo.
Deverá escandalizar alguns leitores, enquanto os que partilham das mesmas referências talvez concordem. Qualquer que seja o caso leitor, leia o ensaio seguinte e envie seus comentários.
O poder dos intelectuaisA esquerda é tão hábil em denunciar a maldade do capitalismo quanto inepta em reconhecer a cota de culpa que lhe cabe na situação denunciada. E não falo aqui, leitor, nem da incompetência que demonstram nem dos crimes que cometem ao assumir o governo, mas falo daquilo que Reinaldo Azevedo, muito apropriadamente, tem chamado de delinqüência intelectual.
Porque não é de políticos que eu falo, nem aos políticos que me dirijo, mas à classe dos intelectuais. Os pensamentos delinqüentes desta classe precedem de muito a atual administração petista e continuarão sua obra de destruição independente do resultado desta e de qualquer outra eleição.
Os intelectuais, longe de constituírem um grupo de sábios desprovidos de influência social, são, na verdade, uma casta especial com um tipo próprio de poder: o de conquistar as mentes e os corações dos homens.
É verdade que se trata de um poder mais sutil que o do político ou o do homem de negócios. Os intelectuais não fecham acordos milionários nem declaram guerras. Mas, quando estes acordos são fechados e estas guerras declaradas, caminham na direção estabelecida pela cultura vigente; a qual foi longamente moldada pelo trabalho de vários intelectuais.
O PT não teria vencido a última eleição presidencial se os intelectuais não tivessem preparado longamente as massas para crerem em uma suposta superioridade moral das esquerdas. Os empresários não se veriam coagidos a alegarem ter empresas “socialmente responsáveis” se os intelectuais não tivessem criado e difundido esta idéia. Longe de ser um eremita isolado do mundo prático, o intelectual é uma força social que influencia tanto o homem de negócios quanto o político, criando as condições em que ambos terão que agir. Em suma: as idéias têm conseqüências.
E as idéias dos esquerdistas têm conseqüências nefastas para a sociedade. O que não deixa de lhes ser muito útil: degradando a sociedade com seu pensamento delinqüente, atribuem o mal que causam ao sistema que almejam destruir, transformando suas culpas em dividendos políticos.
E por isso não posso me empolgar com nenhum pleito eleitoral, leitor: Nenhuma quantidade de votos irá reverter o poder das idéias criminosas; estas continuarão contaminando nossa cultura enquanto não forem desmascaradas.
E este é precisamente o objetivo deste texto: desmontar algumas idéias e alguns sentimentos que se espalharam pelas mentes e corações dos nossos contemporâneos. As idéias falsas são alguns enganos quanto a princípios básicos da economia; e os sentimentos destrutivos são os que nascem diretamente destes enganos. Adiante!
Produção e distribuição de riquezaO erro básico do pensamento esquerdista – batido, batido, eu sei, mas é importante relembrar – é supor que há uma quantidade constante de dinheiro na sociedade e que as relações econômicas apenas mudam a distribuição deste dinheiro. Ou seja, acham que a economia é um “zero-sum game”; para cada um que ganha, outro tem que estar perdendo. Felizmente, as coisas não são assim. Além da redistribuição - que de fato ocorre – há também a produção de riqueza. E é isso que pretendendo demonstrar a seguir.
Convido o leitor amigo a uma pequena experiência de pensamento que o imunizará contra esta que é uma das mais básicas falácias econômicas. Analisemos o que está em jogo nesta simples situação: suponhamos que o leitor, ao invés de passar uma tarde olhando para o teto, se levante e vá trabalhar. Digamos que passe a tarde consertando uma televisão quebrada e que, em troca do serviço, receba cinqüenta reais. Quais as conseqüências sociais desta ação?
Primeiramente, ele provocou uma redistribuição financeira na sociedade: cinqüenta reais saíram do bolso do seu empregador e foram para o seu. Se fosse apenas isto, a esquerda teria razão. Mas não é apenas isto que ocorre, como já percebeu o leitor: além do dinheiro ter mudado de bolso, surgiu mais uma televisão funcional na sociedade!
Analisemos o que isto significa. Se a sociedade tivesse uma quantidade “x” de dinheiro, ao final da transação, ela continuaria com a mesma quantidade de dinheiro em circulação – e teríamos a impressão que a esquerda tem razão. Porém, além disto, um novo bem – a televisão – entrou no circuito. Portanto, se a quantidade de bens era “y”, agora ele é “y + uma televisão”.
Conseqüentemente, o trabalho produz – além de redistribuir – as riquezas. Quem trabalha, portanto, enriquece a si mesmo e a sociedade. O trabalho é um bem que o indivíduo faz a si mesmo e a toda a sociedade. “Trabalhe e ganhe dinheiro – o máximo que puder, dentre dos limites da lei e da ética”, eis toda a responsabilidade social de que precisamos, eis o mandamento que precisa ganhar as mentes e os corações de nossos contemporâneos.
Pobreza e riquezaA partir deste princípio, podemos aproveitar para esclarecer melhor o que se entende por pobreza, para entrarmos nas discussões seguintes.
Comecemos por definir pobreza. Parece que utilizamos dois critérios para definir a pobreza: chamemos um de “pobreza relativa” e o outro de “pobreza absoluta”.
Pelo primeiro termo, nos referimos a relação que o sujeito ocupa na hierarquia econômica da sociedade. Na medida em que houver uma distribuição não-eqüitativa de renda, haverá sempre alguns sujeitos com mais bens e outros com menos. Quem tiver menos será pobre em relação a quem tiver mais.
Chamo isto de “pobreza relativa” porque sempre será definida em relação aos membros de seu meio. Em um meio muito rico, o pobre desta sociedade talvez seja considerado rico se puder levar os bens que possui para uma outra situação onde as pessoas estão em uma situação pior.
Não são abstrações deslocadas da realidade de que falo, leitor. Tomemos um exemplo concreto: em um colégio de elite talvez esteja matriculado um aluno de classe média que foi aceito por causa de uma bolsa por excelência em alguma atividade. Em relação aos seus colegas, este aluno é pobre, pois não poderia pagar a escola com a renda de sua família. Contudo, caso fosse estudar em uma escola pública, este aluno seria o rico da turma.
O leitor já deve ter percebido que o conceito de “pobreza relativa” é bastante fraco para descrever a realidade. Afinal, quando o leitor pensa em pobreza, está pensando em pessoas que passam por grandes sofrimentos, por estarem privados da possibilidade de satisfazerem suas necessidades básicas; e esta idéia de “pobreza relativa” não se refere a isto de maneira alguma, pois acabamos de chamar de pobre o estudante de uma escola de elite, e de rico o estudante de uma escola estadual.
Para discutirmos a questão da pobreza, portanto, um conceito relativo não é suficiente: precisamos de algum critério absoluto e, sendo assim, precisamos explicar o segundo sentido de pobreza anunciado acima.
Mas, antes de mais nada, que o leitor não vá pensar que pode resolver a contradição acima apelando para a divisão da sociedade em classes alta, média e baixa. Este critério é ainda relativo, pois ainda toma como base um valor móvel: a mesma sociedade na qual estão inseridas todas as três classes. Mais um exemplo para dinamitar esta falsa saída: peguemos dois alunos da classe média brasileira e enviemos um para o país mais lascado da África e outro para o bairro mais rico dos Estados Unidos. Em um segundo, teríamos um novo rico e um novo pobre.
A conclusão, leitor, é que nem um conceito relativo é suficiente para entendermos a dinâmica econômica da sociedade, nem a referência a classes econômicas fornece um critério absoluto que nos tire desta situação.
Voltemos então à questão de qual seria este critério absoluto de pobreza. Para encontrá-lo, talvez seja útil descrever o que pensamos quando dizemos que alguém está em uma situação de pobreza. Basicamente, me parece que usamos este termo para assinalar alguém que está privado de bens, ou com bens de baixa qualidade, ou impedido de realizar algumas de suas necessidades. Não possuir uma casa, por exemplo; ou possuir uma casa de péssima qualidade. Não poder se alimentar satisfatoriamente. Não ter acesso à educação de qualidade e a outros produtos culturais.
Portanto, parece que quando falamos em pobreza estamos sempre falando em privação. Privação de quê? De uma série de coisas, evidentemente: comida, propriedade, informação. Ora, mas poderíamos dizer que todas estas coisas fazem parte da uma mesma espécie, que podemos chamar de riquezas; entendendo riqueza como todo tipo de coisa de que podemos nos apropriar. E eis o nosso critério absoluto: a pobreza se mede pela quantidade de riqueza.
Evidentemente, isto ainda não nos dá uma escala absoluta, pois ainda não sabemos definir quanta e que tipo de riqueza distingue um pobre de um rico. Para isto, precisaríamos de mais um critério que ainda não temos. Contudo, já saímos do total relativismo do começo: temos um padrão que não varia de acordo com o contexto no qual está inserido.
Voltemos a um exemplo concreto para clarear as coisas. Nosso estudante de classe média é relativamente pobre em um colégio de elite e relativamente rico em um colégio estadual: sua posição hierárquica muda quando ele muda de meio. Contudo, a quantidade de riquezas que ele possui é mesma enquanto ele muda de meio (para efeito de raciocínio, leitor, vamos supor que a qualidade do ensino – miraculosamente, eu sei – é a mesma nas duas instituições, mudando apenas o nível financeiro dos estudantes das duas instituições).
Espero com isto ter me feito entender. O critério quantidade de riqueza nos dá um critério absoluto, nos retirando do relativismo que nos encontrávamos no início da discussão.
Porém, é também verdade que não temos como montar uma escala absoluta de pobreza sem recorremos a critérios adicionais. Contudo, não precisamos nos preocupar com isto neste momento, pois esta pequena distinção já nos servirá para resolver alguns problemas, como tentarei mostrar a seguir.
Soluções liberais e sacanagens socialistasTendo em mente as idéias acima, o leitor logo concordará que este subtítulo não é mera provocação, mas exata descrição da realidade. É sabido que no imaginário popular a esquerda aparece como a defensora dos pobres, enquanto a direta defende os direitos dos ricos. Esta imagem, antes de mais nada, se fundamenta em um grande engodo. Vamos a ele.
Um dos grandes problemas da retórica esquerdista é que ela se fundamenta na duplicidade de sentido de suas palavras: quando o esquerdista fala, suas palavras têm um sentido para os membros do seu partido e um outro para seus leitores. É o que pretendo demonstrar ser o caso, pelo menos em relação à questão da pobreza, nos parágrafos seguintes.
O discurso esquerdista atraí, primeiramente, aqueles que são movidos pelo caridoso sentimento de aliviar o sofrimento do próximo. São pessoas que sentem uma forte empatia pelos que estão nas camadas economicamente mais baixas da população, e gostariam de fazer qualquer coisa para melhorar a condição de vida deles. Estes pessoas encantam-se com o discurso esquerdista, que parece estar realmente interessado em resolver esse problema, e passam a apoiar os candidatos e os ideólogos deste grupo.
Quem possui um real sentimento de caridade com os pobres quer vê-los em melhor condição de vida: ou seja, quer que o nível de riqueza deles aumente. Intuitivamente, eles se fundamentam naquele nosso critério absoluto: o problema do pobre é ausência de riquezas.
Entre estas pessoas, a esquerda colhe seu eleitorado. Porém, se engana quem confia que a esquerda irá realizar este objetivo. Afinal, ela não tem nem o interesse em realizá-lo, nem a competência para fazê-lo. Explico-me.
Conversemos primeiro sobre o porquê de não ser este o interesse da esquerda. Ora, com isto retornamos ao primeiro tema que abordamos lá em cima: a esquerda está preocupada com a distribuição e não a produção de riquezas.
A mudança da distribuição de renda não aumenta a quantidade total de bens em circulação, apenas desloca a riqueza de um lado para o outro. Ou seja, o único tipo de pobreza que a esquerda remedia é a pobreza relativa; nada fazendo quanto à pobreza absoluta que era justamente o que fez seus eleitores têm em mente quando votam nela.
E o remédio esquerdista, vale ressaltar, consiste apenas em retirar de uns para dar aos outros, sem aumentar em nada o montante total de bens, e, além disso, desperdiçando boa parte em uma burocracia ineficiente, em projetos alheios ao interesse do povo e instaurando um novo e belíssimo critério de distribuição de renda: antes dos pobres, mais riquezas para os governantes corruptos e para os líderes do Estado. Com o pretexto de ajudar os pobres, a esquerda rouba um pouco de todo mundo para inchar a maquina estatal e sustentar a si própria.
Mas não basta enganar uma única vez seus eleitores: o engano precisar ser contínuo, para mantê-los em sua base de apoio. Para isto, precisam difundir idéias deturpadas sobre a economia e a sociedade para convencê-los de que os pobres são pobres por causa da “injustiça social”; ou seja, a pobreza é causada pelos ricos. Deste modo, a esquerda vai gradualmente transformando a alma dos seus simpatizantes: no início, eles procuraram a esquerda para acabar com a pobreza; mas agora, já não é a pobreza que incomoda, mas sim os ricos. Já não é simpatia e caridade pelos que estão em baixo, mas inveja e ressentimento pelos que estão em cima.
A transmutação está completa quando o esquerdista já não fica indignado com o fato de que alguns têm pouco, mas principalmente com o fato de outros terem muito. Por isso mesmo, ele pouco se importa com aquele nosso critério absoluto: ele já não quer dar mais riquezas para os pobres; ele quer retirar as riquezas dos ricos. Já cheguei a ouvir, estarrecido, uma destas burocratas declarar que não descansaria enquanto todos os membros de determinada classe profissional (que por obscuros motivos ela via como inimiga da sua) estivessem dirigindo carros populares. Ou seja, ela já não queria nem mesmo melhorar a condição dos seus: piorar a dos outros era suficiente.
Veja agora o leitor se eu não tinha razão em chamar isso de “sacanagem socialista”! Começa com uma falácia econômica, prossegue com mentiras eleitorais e termina com a perversão da alma do infeliz bem-intencionado. O pobre continua pobre, enquanto o nosso bom samaritano agora virou um guerrilheiro que quer enforcar o último burguês nas tripas de um outro infeliz qualquer. Que adjetivo devemos dar para tal ideologia? Que nem resolve problema econômico algum e ainda cria uma série de problema psicológicos e espirituais para toda a população?
Creio, com isto, ter mostrado que a esquerda não tem interesse algum em resolver o problema dos pobres, o que ela quer é criar um problema para os ricos. Mas eu dizia também que, mesmo se ela quisesse, ela não teria competência para tal. Não recorrerei a argumentos teóricos para provar isto – até porque, se alguém ainda precisa de provas neste sentido, é porque prova alguma será suficiente – mas a um simples dado histórico: praticamente todos os governos socialistas causaram um empobrecimento maciço da população.
Frente a estas sacanagens socialistas, quais são as soluções liberais? Ora, uma bem simples, que retoma também nosso primeiro tópico lá de cima: vamos parar de se preocupar em distribuir e nos ocupar em produzir riquezas. Deste modo, aumentaremos o nível total de bens; e, quando a quantidade de bens em circulação aumenta, todos se beneficiam. Não precisamos extinguir a hierarquia econômica, mas melhorar as condições de todos os membros da sociedade. Ainda haverá ricos e pobres; porém, apenas em termos relativos, pois a quantidade de riquezas de ambos terá aumentando significativamente.
Mais que argumentos teóricos, temos mais uma vez argumentos históricos: as sociedades capitalistas melhoraram significativamente a qualidade de vida de todos os extratos de sua população, tanto dos seus pobres quanto de seus ricos.
Confrontado com este dado, o socialista ensaia um último argumento desesperado para sair desta “sinuca de bico”: se há países capitalistas ricos, é porque há países pobres; reeditando, em escala global, a idéia de que não há produção, apenas redistribuição de renda. Não é nem um novo argumento, mas apenas a repetição da idéia que, como o leitor deve lembrar-se, já foi desacredita pelo “experimento de pensamento” que fizemos juntos lá em cima. Não vale, portanto, gastar palavras para desmontar este inócuo subterfúgio.
Caso a questão fosse exposta com esta clareza para toda a população, não resta dúvida que todos iriam escolher as soluções liberais. Afinal, tanto os pobres quanto as almas caridosas e os empresários querem mesmo é aumentar a quantidade absoluta de riquezas de todo mundo. As únicas pessoas que não se satisfazem com estas alternativas são os revolucionários que querem destruir a sociedade e as pessoas que estão com a alma tão ressequida ao ponto de já não se alegrar com o sucesso dos outros, mas apenas com a desgraça de seus inimigos.
O capitalismo, portanto, é um sistema que trás benefícios a todos, embora beneficie uns mais que os outros. As propostas socialistas, por outro lado, não beneficiam ninguém, e ainda prejudica uns mais que os outros. E é por isto, aliás, que aqueles que se compadecem com os sofrimentos dos pobres deveriam apostar no capitalismo e não no socialismo: quando movidos por um sentimento caridoso, queremos melhorar a quantidade absoluta de riquezas do sujeito (e, aliás, isto é precisamente o que o próprio sujeito está querendo). O socialismo não fará isto, pois não quer melhorar – nem jamais melhorou – a situação de indivíduos concretos: o que ele quer é apenas derrubar os que estão em cima; alimenta-se, portanto, da inveja, não da caridade.
O que é justiça social? Já que o leitor e eu chegamos até aqui, andemos mais um pouco para desmistificarmos a idéia de justiça social, outro dos fetiches retóricos dos nossos intelectuais, que caminha na mesma direção do que viemos discutindo.
Abandonando o campo dos argumentos teóricos e dos fatos históricos, o esquerdista encontra na idéia de “justiça social” uma nova arma de denúncia contra nossa sociedade: a condenação moral. Esta posição, contudo, abriga algumas contradições que a tornam insustentáveis. É o que tentarei mostrar-vos a seguir.
Os porta-vozes da justiça social afirmam que não é justo que certas pessoas vivam em condições precárias, enquanto outras desfrutam de bens superlativos. Veja o leitor que esta discussão é muito semelhante a anterior, mas já saiu do campo propositivo e analítico (ou seja, da busca pelas causas e da proposição de soluções) para entrar no campo ético. Prossigamos.
Esta linha de argumentação coloca o defensor do nosso sistema em uma difícil solução: justificar ou condenar moralmente a pobreza. Alguns dos defensores do capitalismo optam por uma saída equivocada: defendem que há uma justificativa moral para esta situação; é a turma do “só é pobre quem quer”, ou do “algo fez para merecer isto”. A meu ver, esta postura é uma clara demonstração de inconsistência moral: quem a sustenta, cai na armadilha dos acusadores e merece ser, de fato, acusado de imoral.
É inegável que alguma razão tem os esquerdistas: as condições sociais criam uma série de restrições ao desenvolvimento das potencialidades do indivíduo; condições estas que vitimam o indivíduo, e que não são de sua responsabilidade. Alguma razão ela tem, mas não toda: a esquerda perde a razão quando faz da influência da sociedade o principal – e às vezes até mesmo o único – fator determinante do destino de um indivíduo, abolindo a dimensão da escolha e da responsabilidade individuais.
Esta dimensão de liberdade e responsabilidade que a esquerda quer negar é precisamente a dimensão que a direita procura resguardar. E ela tem toda a razão em fazê-lo, pois esta dimensão é muito mais importante que qualquer outra. Contudo, alguns direitistas erram quando passam indevidamente da afirmação desta dimensão à negação de todas as outras. O que é preciso afirmar – sem exageros que falseariam a discussão – é o seguinte: a influência social existe, mas além dela existem também a liberdade e a responsabilidade.
Espero não ter me perdido do leitor: falávamos do porquê não ser justificável defender moralmente a miséria. Uma última distinção tornará esta questão mais clara: trata-se da diferença entre culpa e responsabilidade. Por “culpa”, tratamos de tudo aquilo que o próprio sujeito causou: das conseqüências que derivam dos seus atos. Por “responsabilidade”, nos referimos ao quê, independente de ter sido ou não causado pelo sujeito, cabe apenas a ele lidar com a situação.
Um exemplo deixará as coisas mais claras: tomemos dois sujeitos que descobriram ter algum problema no fígado. Um deles embriagava-se diariamente; o outro nunca bebia, mas tinha uma forte predisposição genética a ter problemas neste órgão. Os dois são responsáveis por buscarem tratamento para sua condição (afinal, os fígados são deles e de mais ninguém). Contudo, apenas o primeiro é culpado, pois foram suas ações que causaram a doença, enquanto o segundo não teve nenhuma parte na causa de sua condição.
Com esta distinção, podemos coerenciar as “positividades” (no sentido mesmo de Mário Ferreira dos Santos) dos argumentos direitistas e esquerdistas. A esquerda assinala que o pobre não tem culpa de sua condição; e, na maioria dos casos, realmente não tem mesmo: o sujeito está em uma situação miserável porque não teve acesso às oportunidades que o tirariam de lá. Por outro lado, a direita também tem razão: o pobre tem que assumir a responsabilidade por sua situação. Longe de ser uma sacanagem adicional com quem já está por baixo, este chamado à responsabilidade é a melhor coisa que podemos fazer pelo sujeito: quando ele admitir que cabe a ele se esforçar para sair daquela situação, ele terá, pela primeira vez, uma possibilidade concreta de mudar de vida. Por outro lado, se ele jamais assumir a responsabilidade por sua vida, de nada adianta ajudá-lo, pois ele nunca terá a firmeza necessária para aproveitar a oportunidade oferecida.
Vejam que as duas coisas são simultâneas verdadeiras, pois se situam em planos diferentes: ele não causou a situação, logo não é o culpado por ela; contudo, todo homem é responsável por sua vida, logo cabe a ele esforçar-se para sair de lá.
E agora entramos no outro argumento da esquerda – além do determinismo social – para eximir o pobre de sua responsabilidade; e um argumento que é central na questão da justiça social. O cerne do argumento é o seguinte: havendo um culpado pela situação (e sabemos que este não o pobre) é a ele quem cabe reparar sua falha; e, como os ricos exploram os pobres, eles são os responsáveis pelas “injustiças sociais”. O principal problema do silogismo está nessa proposição: os ricos são os culpados pela pobreza. Esta proposição é, aliás, a pedra fundamental do discurso pela “justiça social”. Que tal analisá-la?
A idéia de que os ricos causam a pobreza se fundamenta lá no nosso primeiro tema: a idéia de que há apenas distribuição e não produção de riquezas. Voltemos mais uma vez ao tema para exorcizá-lo para todo o sempre
Para usar um exemplo que surgiu em uma discussão recente: as pessoas pensam que para Paris Hilton ter muito dinheiro, ela precisou tirá-lo de alguém. Nada sabendo sobre o caso específico da moça, devo argumentar que, pelo menos teoricamente, há uma outra maneira dela ter conseguido tanto dinheiro: ela, ou sua família, produziu por si mesma uma quantidade enorme de riquezas. Sendo este o caso, longe de ser um roubo, o enriquecimento da família da moça é algo extremamente louvável: pois, como vimos acima, ao criar uma quantidade formidável de riquezas, os empresários beneficiam não apenas a si próprio, mas também à sociedade em torno; no caso, aos seus funcionários e a seus consumidores, assim como uma série de pessoas que indiretamente também recebem benefícios (a esposa do funcionário, a cabeleireira desta esposa, o filho da cabeleireira, etc.).
O argumento da esquerda parece se fundamentar no pressuposto que sempre existiu uma quantidade constante de riquezas, sendo que ao longo da história os ricos foram acumulando uma porção cada vez maior destes bens, empobrecendo progressivamente as camadas mais pobres. Mas este definitivamente não é o caso. Na verdade, sempre houve uma quantidade bem pequena de riquezas que, graças aos esforços dos empreendedores, foi crescendo ao longo da história.
Que estes empreendedores sejam os principais beneficiados pelas riquezas que criaram não é nada mais que justo: afinal, eles estão apenas colhendo o que eles próprios plantaram. Além disto, os “odiosos” capitalistas – independente das intenções que se atribua a eles – terminam por serem grandes benfeitores para a humanidade: pois quando aumentam a quantidade absoluta de riquezas na sociedade – mesmo que fiquem com a maior parte das novas riquezas produzidas – eles promovem necessariamente um enriquecimento dos demais (inclusive dos mais pobres).
É verdade que o capitalismo não extinguiu a “pobreza relativa” de que falávamos acima: ainda há uma hierarquia econômica, onde uns tem mais e outros tem menos. Contudo, o capitalismo fez muito para diminuir a “pobreza absoluta” e, deste modo, obtiveram para os mais pobres exatamente o que estes desejavam: uma melhora na sua condição de vida.
Não é correta, portanto, a proposição de que os ricos causam a pobreza; e este é o erro fundamental do argumento esquerdista. A pobreza – absoluta e relativa – já existia antes do capitalismo; conseqüentemente, o capitalismo não pode ser a causa dela, pois nada poder ser a causa de um efeito que o preexistia..
É verdade que o advento do capitalismo não extinguiu a pobreza relativa; mas, como já vimos, este critério é ridiculamente pouco importante, pois sua mudança não implica em nenhuma mudança concreta na vida de ninguém. Por outro lado, o capitalismo – através dos esforços de vários empreendedores – melhorou extraordinariamente o grau de pobreza absoluta; este sim, um critério importante, pois implica em uma mudança real nas condições concretas de vida de todas as pessoas, ricas ou pobres.
A conclusão incontornável é a seguinte: o capitalismo não causou nenhum dos tipos de pobreza e ainda fez muito para remediar um destes tipos – justamente o mais importante.
Para um exemplo concreto, voltemos à família de Paris Hilton, leitor: não foi sua riqueza que causou a pobreza dos demais: afinal, a pobreza já existia antes de sua fortuna ser reunida, não aumentando nem um pouco por causa do enriquecimento da moça. Portanto, se ela não tiver conseguido sua fortuna desrespeitando a ética e as leis, ela não fez absolutamente nada de errado – e pode, ao contrário de Marilena Chauí, “viver sem culpas”. A família da jovem, pelo contrário, fez até mesmo um bem aos demais; pois, como vimos acima, é o trabalho que enriquece a sociedade. Quem trabalha é uma força positiva no mundo; ao contrário das línguas venenosas que desviam do reto caminho os bem intencionados. E, com isto, afastamos definitivamente a pretensão esquerdista de culpar os ricos pela existência da pobreza.
Não sei se o leitor se lembra, mas toda esta discussão partiu do dilema em que a direita é colocada pela esquerda: devemos condenar ou justificar moralmente a pobreza?
Sabemos que justificar moralmente a miséria é de uma tamanha insensibilidade moral que, quem o faz, merece os rótulos infamantes que a esquerda adora propagar. E, pelo que foi dito acima, vemos que não cabe culpar o capitalismo – ou seus principais beneficiários: os ricos – pela existência da pobreza.
Mas terá isso sido suficiente para calar as reivindicações esquerdistas de justiça social? Provavelmente não. Excluímos um de seus principais vilões, o capitalismo, mas a esquerda é ágil em encontrar novos bodes expiatórios. Contudo, toda sua busca está falseada na base: ele jamais encontrará um réu, pois isto que ele acha que é um crime não é nem mesmo condenável.
É evidente que não é moralmente justificável a existência da miséria, posto que os miseráveis – salvo raríssimas exceções – nada fizeram pessoalmente para merecer este destino. Por outro lado, também não podemos condenar moralmente a existência da pobreza. Além dos motivos específicos expostos acima, há mais um argumento que deve ser levando em consideração.
Quando dizemos que somos injustiçados, queremos dizer que um direito nosso não está sendo respeitado: algo nos era devido e não foi cumprido. Se prestarmos atenção, veremos que isto implica a necessidade de haver uma reciprocidade entre direito e dever. Afinal, para todo direito existente é preciso existir uma parte cujo dever seja assegurar este direito. Um exemplo concreto: o direito da criança em ser cuidada corresponde ao dever materno em cuidar do filho. Mais um: ao direito de receber por seu trabalho, corresponde o dever do patrão em remunerar seu funcionário.
Apliquemos este raciocínio à idéia de justiça social: se a sociedade é injusta por nela existirem pobres, existe o direito à riqueza. Mas, para existir o direito à riqueza, é necessário que haja uma entidade cujo dever seja enriquecer todos os membros da sociedade; tem que haver algo ou alguém que se responsabilize por todas as misérias humanas.
A existência desta entidade é um pressuposto essencial para toda a discussão quanto à justiça social. Que seja um pressuposto mais ou menos inconsciente, não muda em nada este fato. Aliás, é preciso que esse pressuposto não seja plenamente conscientizado: se o fosse, o absurdo da idéia tornar-se-ia patente a todos.
Espalhando o discurso da justiça social sem explicar quem é o responsável para manter essa justiça, a esquerda consegue espalhar um clima de reivindicação tanto mais eficiente quanto menos se sabe a quem a conta deve ser cobrada. Sutilmente, os esquerdistas direcionando esses sentimentos para alvos convenientes: o capitalismo, os empresários, os países ricos, o governo.
E, pelo que discutimos, já sabemos que esta culpa não cabe a nenhum destes agentes: como todos eles passaram a existir muito depois da existência da pobreza, não podem ser a causa dela.
Ora, leitor: não havendo uma entidade que tenha como dever garantir a justiça social, esta não pode ser um direito de forma alguma. Não há, portanto, outro culpado pela existência da miséria que o próprio fato de que o homem existe no mundo.
E agora respondemos ao nosso dilema: devemos condenar ou absorver moralmente a sociedade pela existência da miséria? É a minha conclusão, leitor, de que ambas as alternativas são falsas, pois, ao menos nesta questão, há uma terceira possibilidade: nem julgar nem condenar, mas encarar este fato como um dado social que não foi causado por ninguém, portanto, não há a quem condenar por sua existência.
E, veja o leitor, que até mesmo a alternativa de condenar a sociedade como um todo é falsa. Sem a sociedade, o homem não vive em abundância, mas em barbárie; a sociedade não provoca, mas diminui a pobreza.
Embora absurda, a idéia de justiça social – como é de praxe nas idéias esquerdistas – não chega a ser inócua. Difundida pela sociedade, dela emerge o sentimento de que, de algum modo, alguém nos deve algo, alguém é responsável pelo estado atual das coisas. Como já foi dito, este sentimento sem objeto definido é utilíssimo para direcionar a revolta para alvos políticos pré-selecionados; mas esta não é sua única utilidade. De fato, quando na oposição, a esquerda o direciona para o governo direitista, de modo a fazê-lo parecer culpado pela existência da pobreza, alcançando dividendos políticos. Porém, quando a esquerda assume o governo, descobre uma nova utilidade para este sentimento: aproveita a impressão geral de que cabe ao Estado resolver todas as mazelas da população para aumentar ainda mais seu poder. Assumem de bom grado a responsabilidade que atribuíam aos direitistas: “Agora que estamos no poder, iremos acabar com todos os seus problemas. Dêem-nos mais poder que, no futuro, os recompensaremos”. Incha-se o Estado, fortificam-se os burocratas, surge uma nova casta poderosíssima, que engole a liberdade do povo, desperdiça e rouba seu dinheiro e não produz absolutamente nada. E, tudo isto, a título de justiça social.
O retorno à caridadePara completar esta exposição, analisemos agora o erro das pessoas que, destas proposições corretas, tiram conclusões falsas.
Estas pessoas acertam em rejeitar a culpa pelas mazelas sociais, mas caem logo em seguida no seguinte erro: o de que nós, que não somos pobres, não precisamos nos preocupar com eles, já que é responsabilidade deles melhorarem suas vidas. Ora, o fato de eles terem sua quota de responsabilidade não nos exime da nossa própria responsabilidade.
Não somos culpados pela existência da miséria, como querem alguns, e por isso não deveríamos nos sentir culpados pelas oportunidades que temos e outros não tiveram. Mas, como vimos acima, a diferença entre culpa e responsabilidade é bastante significativa. Rejeitar a culpa que falsamente nos atribuem não implica em rejeitar também as responsabilidades que nos são próprias.
As diferenças entre as duas posturas são muitas e talvez se tornem objeto de reflexão em outro momento. Por enquanto, me limitarei a enunciar algumas: enquanto numa os sentimentos se dirigem para reformas abstratas, na outra se dirigem para indivíduos concretos; em uma a motivação é o sentimento de culpa, na outra, é a caridade que nos move. E talvez a principal diferença seja que em um caso, alimenta-se o sentimento de revolta e indignação contra o mundo; na outra, a preocupação não é com o mundo, mas com a própria conduta. Afinal, leva-se em conta o seguinte princípio: “Quem odeia a injustiça, deve-se começar primeiramente por abster-se de praticar pessoalmente qualquer injustiça”. E este, definitivamente, é um princípio exigente o suficiente para deixar o sujeito com pouquíssimo tempo para reclamar dos outros.
De volta ao poder dos intelectuais: por uma terapia do intelectoVê-se como podem ser perigosas as idéias, cegando as mentes e distorcendo os corações de quem segue tais falsidades. São as mentiras e os baixos sentimentos que devem ser combatidos; não os homens de ação ou os partidos políticos.
Voltando ao que foi dito no início deste artigo, vemos que os intelectuais possuem um determinado poder ação sobre a sociedade que está longe de ser inócuo: o de gerar e moldar idéias. E as idéias, ao espalharem-se pela população, influenciam a conduta, os sentimentos, as atitudes e até mesmo a percepção da realidade. As idéias, portanto, influenciam como as pessoas vêem o mundo e como pretendem agir para transformá-lo. Idéias saudáveis enriquecerão o mundo. Idéias destrutivas o destruirão.
Na cultura nacional, há uma série destes lugares-comuns perniciosos, que circulam enquanto pressupostos não-examinados, atravancando o pensamento e obscurecendo a visão da verdade. A desorientação não se limita aos cidadãos comuns, mas afeta também os próprios intelectuais. E, desorientados, estes se põem a discutir sandices, cegos aos verdadeiros problemas. E, se não enxergamos nem os problemas, nem é preciso dizer quando encontraremos as soluções.
Trata-se de uma obviedade, mas que precisa ser relembrada: para resolver um problema, é necessário que alguém saiba resolvê-lo. E mais: para que alguém saiba resolvê-lo, é preciso antes que esta pessoa seja capaz de compreendê-lo. Portanto, os problemas intelectuais são mais importantes que qualquer problema econômico ou político.
Antes que haja uma geração de pessoas inteligentes, capazes de entender as grandes questões, não haverá solução para os demais problemas. A proliferação de enganos – como estes analisados neste artigo – são um dos obstáculos a este objetivo. Estes lugares-comuns precisam ser trazidos à luz e examinados; faz-se necessário algo como uma psicoterapia do intelecto: que sejam desmascaradas as mentiras inconscientes.