Thursday, December 15, 2005

Como ler “Como ler um livro”

Foi apenas depois de ter passado algum tempo tentando aplicar as regras de Adler que eu percebi exatamente em quê consiste aquele livro (embora, me parece que o próprio Adler tentou alertar para isso, sem que eu prestasse atenção necessária para aprender isto durante a leitura).

Percebi, basicamente, que as regras de leitura enunciadas por Adler não são exatamente regras, mas sim a explicitação formal de certo atos cognitivos que todos nós, de forma inconsciente ou não, realiza durante a leitura, antes mesmo de ler o livro dele. O que o livro faz é explicitar estes atos cognitivos para que tomarmos consciência deles e, assim, podermos aprimorar o uso deles. Ou seja, de certo modo, todos nós, uma vez ou outra, buscávamos entender a definição de um conceito, mas fazíamos isto desorganizadamente; procurávamos definir um conceito secundário e nem notávamos que havia um conceito essencial que não tínhamos apreendido. Portanto, saber ler bem não é saber as regras de leitura de Adler (elas poderão até ser totalmente esquecidas posteriormente), mas é saber quando e como aplicar certos atos cognitivos.

Consequentemente, o “como ler um livro” deve ser lido com um conjunto de prescrições terapêuticas, que devem ser seguidas, como em exercícios de fisioterapia, até que aqueles atos se incorporem aos nossos movimentos naturais; então, poderão ser esquecidos.

Além disto, é importante saber adaptar estes atos para cada livro. Não se trata de aplicar mecanicamente cada uma daquelas regras; nem todas precisam ser seguidas, e não precisam ser executadas naquela ordem. Caberá o leitor, a cada livro que for ler, descobrir qual estratégia irá utilizar para decifrar o livro. Para isto, terá que considerar principalmente dois pontos: qual a natureza do livro e qual seu interesse nele. A natureza do livro (o tema, o estilo de exposição, etc.) vai determinar quais as melhores abordagens que podem ser feitas para estudá-lo. O interesse do leitor vai determinar o quê e até que ponto ele procura extrair do livro.

Não perceber claramente estes pontos foi um dos meus primeiros erros na tentativa de aplicação dessas regras; eu as encarava como procedimentos mecânicos e não como atos mentais. Com o tempo, fui corrigindo meus hábitos de leitura e, quase que simultaneamente, entendendo melhor o próprio Adler. Ainda devo ter muito a aprender com ele, mas já percebo que pude progredir muito graças ao seu livro. Também pude descobrir que a correta aplicação destes atos faz uma grande diferença na compreensão do texto. O simples de fato de procurar dividir as diferentes partes argumentativas do livro já é suficiente para aumentar grandemente a compreensão, pois passamos a saber onde situar cada argumento parcial e como dividir os diferentes componentes do argumento central. Com isto, evitamos erros comuns como tomar como essencial uma tese periférica, rejeitando o livro inteiro por não concordar com uma parte dele, ou concordar com o livro inteiro por ter gostado somente de uma parte.

Por fim, me dedicando aos estudos, tomei também consciência de algo muito interessante que nem estava tão explícito neste livro, mas que ele me ajudou a encontrar. Percebi que o grande diferencial na compreensão dele leitura é menos a estratégia utilizada do que a vontade de compreendê-lo. Evidentemente, em dois casos onde a vontade é a mesma, a estratégia fará grande diferença; porém, a diferença maior é entre a mesma estratégia sendo utilizada por alguém que quer aprender e alguém que não quer. O desejo de aprender é a primeira condição essencial para o aprendizado. Faz uma enorme diferença ler um livro para chegar ao seu fim, e ler um livro para chegar ao entendimento. Quando queremos entendê-lo não hesitamos em reler as passagens difíceis, voltar para um trecho anterior, interromper a leitura para buscar outras fontes. E, principalmente, quando queremos realmente entender a leitura, estamos concentrados nela; enquanto queremos apenas terminá-la, lemos apenas com parte da mente, enquanto o restante de nossa atenção vaga desorientadamente. Por isso, me parece que mais importante do que a estratégia de estudo, é escolher algo que realmente nos interessa em estudar.

7 Comments:

Blogger michelwilliams8160 said...

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6:36 PM  
Anonymous Anonymous said...

Eu li aquele livro, mas somente as partes gerais e não as que se referiam a certos tipos de livros... O que ele diz sobre "dividir as diferentes partes argumentativas do livro" ?

4:20 PM  
Blogger Mauro said...

Ei, olá, Lucas. Tentei achar pela internet o "como ler um livro", mas não tives sorte. Há algum lugar onde ainda se possa encontrá-lo? Abraço, Mauro.

12:44 PM  
Anonymous Anonymous said...

Na UniverCidade, Gal. Justos, 171, 5 andar

2:35 PM  
Anonymous Anonymous said...

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10:27 PM  
Blogger Maria Cristina said...

Simplesmente adorei.....
Um abraço

8:28 AM  
Blogger lucasmafaldo said...

Maria Cristina.

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Um abraço,
Lucas

2:02 PM  

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